Se, como escreve Viriato Soromenho-Marques no Diário de Notícias de hoje, "a democracia nasceu da luta dos contribuintes para serem cidadãos", o que somos afinal no atual contexto? O que podemos chamar ao sistema (esquema talvez seja uma palavra mais adequado) que os imbecis que nos têm vindo a traçar e traçam o destino criaram?
Em Portugal a palavra daqueles que nos representam (Parlamento, Câmaras e Assembleias Locais) e nós próprios deixaram de valer. Somos definitivamente números. Os tribunais e os reguladores são cada vez mais figuras de estilo. Nós deixamos de ter capacidade de decidir a nossa vida e futuro enquanto nação, sociedade e já em larga medida enquanto indivíduos?
Tudo, de carater justificado ou injustificado, e mais alguma coisa se sobrepõe à vontade e liberdade de um povo e do próprio individuo? Para onde caminham as nossas liberdades?
Como disse há dias Pedro Marques Lopes estamos em processo alargado e contínuo de bail-in, já que os potenciais visados de um potencial bail-out tiveram todo o tempo do mundo para retirar a mão debaixo do peso que os ameaçava esmagar e ainda tiveram oportunidade de ganhar alguma coisa com isso. Quem está e vai pagar, a bem ou mal a nossa dívida e os juros, somos nós e as gerações futuras. E vamos pagar muito mais do que isso.
Imaginem que começa a ganhar corpo uma ideia peregrina do FMI de aplicar aos desgovernados do sul da Europa uma taxa de 10% sobre todas as poupanças dos povos de forma a trazerem a percentagem da dívida para valores a rondar os 60%? Parece que esta já não é só uma mera ideia exploratória, trata-se de algo está a ser estudado e quem sabe preparado para avanças mais cedo do que tarde.
Vivemos definitivamente num novo sistema, talvez ainda não estudado e definido na plenitude, mas de cariz autoritário. Um só caminho, uma só solução, um conjunto restrito de gente capaz de fazer as coisas certas, bem feitas e de decidir, de analisar o resultado das decisões e as alterar ou manter sem interferência de terceiras instituições. O futuro, tal como planeado, é uma imposição que, se necessário, nos é enfiado goela abaixo.
O que restará após a passagem de um governo que tudo aniquila e que não respeita e está contra tudo e contra todos: instituições democráticas (Parlamento; Tribunal Constitucional; Presidente da República; partidos); funcionários públicos; velhos; novos; empregados; desempregados; patrões; concertação social; grandes, pequenas e médias empresas; estado social; mercado regulado; mercado livre; angolanos; chineses e outros potenciais investidores...?
Este governo está inclusive em guerra aberta com consigo próprio. Só restam a TROIKA e os agiotas encartados.
Aquando da entrada dos americanos no Iraque, Carlos Fino em direto e em primeira mão exclamava: "há um trovejar sobre Bagdad!". Lamentavelmente, parece que nunca como hoje começa a fazer sentido dizê-lo em relação a Portugal. Estamos a ser atacados com a artilharia pesada e destrutiva. Sendo curioso, adentro desta metáfora, que a guerra no Iraque em teoria visava implementar a democracia e aqui?
Resilientes mas nem tanto!