sábado, 23 de novembro de 2013

Fronteira da (In)dignidade



O rastilho para este post foi a intervenção de Pacheco Pereira (alguém que tem vindo a demonstrar/clarificar quais os reais valores que presidem à sua intervenção pública/política, e se tem revelado uma enorme surpresa enquanto democrata, cidadão, ator político e fundamentalmente ser humano que se sente e sente os gritos surdos da sociedade) na última Quadratura do Circulo, mas encontra a dinamite nas malfeitorias que se têm feito à democracia, estado direito e à identidade do nosso país nos últimos 2/3 anos e no caos social em que o país está mergulhado. 

Por mais capacidade de sofrimento e interajuda que os portugueses evidenciem, quem não acha que atingimos o limite do sustentável?


Uma larga maioria dos portugueses com capacidade cívica plena acreditou que o atual primeiro-ministro, como alguém que num ambiente de alternância democrática PS-PSD iria debelar todos os males do nosso país criados ou não resolvidos nas últimas décadas, e por outro lado fuzilar politicamente o sacana do homem com nome de filósofo que nos governou durante meia dúzia de anos. Malograda certeza no vazio, transformada em desilusão real.


A realidade é que nos podem enganar e mentir durante algum tempo (e maioria dos membros dos elementos que têm passado pelo governo fizeram-no descaradamente durante a campanha eleitoral e durante a governança recente, com o suporte da troika), mas não nos podem enganar e mentir o tempo todo, a menos que o deixemos fazer por masoquismo ou cegueira/fanatismo ideológico ou partidário. 

Os caminhos seguidos para provocar mais um ato de alternância democrática (eleições de 2011) e a forma elevada ao quadrado de resolver a crise (com ampliação/agravamento das medidas “negociadas”) provaram-se errados. Isso é cada vez mais claro para quem quiser ver.


Muito do que tínhamos por fazer antes da crise mantém-se por fazer. O pior é que quando (se algum dia o fizermos) arregaçarmos as mangas encontraremos um terreno mais difícil e lamacento para as sementes germinarem.


Independentemente das correntes, ideologias e ideias políticas, o povo português sofre, e sofre mais do que merece com a pobreza, com a perda de trabalho, com falta de cuidados de saúde e acesso à educação, com a perda de rendimento engolido pelos impostos, com a perda de bem-estar, com a quebra de confiança, a indefinição e acima de tudo com a perda de esperança e de futuro.

Pior do que evidência, é que a preocupação dos responsáveis é pouco ou nenhuma. Teremos de esperar que o mercado, a seu tempo, resolva todos os desiquilibrios!


Estamos a passar para lá da fronteira da dignidade e a entrar na indignidade. A forma leviana e desligada como se tomam as medidas em nome de inevitabilidades, da correção de desequilíbrios diversos, de um futuro melhor diabolizando o passado recente são o espelho e consequência desse caminho.

 Quem vive do trabalho, por infelicidade, velhice ou incapacidade de mecanismos de proteção social ou do seu próprio negócio transacionável ou não (isso pouco interessa quando o que está em causa é ter pão e capacidade para correr atrás das despesas essenciais, do pagamento de impostos, contribuições sociais e salários) está cada vez mais pobre e a viver uma desigualdade crescente interna e externa (fundamentalmente no seio da UE).


Para percebermos como chegamos até aqui, temos de ir à raiz dos problemas, não ficar pela rama e pelos chavões. Todos, sem exceção e na medida das nossas possibilidade, temos essa responsabilidade. Urge passar ao concreto em detrimento do abstrato, do macro ao micro, do vago ao preciso… para podermos escolher e parar a não escolha em nome de evitar sofrimentos/consequências maiores no imediato. O futuro, a 10, 20,30 ou 50 anos é aquilo que mais interessa. Chega de imediatismos, de culpabilização e lixamento público de Portugal e portugueses.


Há necessariamente responsabilidade e culpa a assumir pelos portugueses (em última análise será sempre nossa), mas também hoje consensual que outros atores contribuíram/em solidariamente para o quebrar da fronteira da (in)dignidade, desde logo pelo enquadramento comunitário em que fomos envolvidos. Disso há evidência política e acima de tudo numérica/instrumental.

Cada dia que passa estamos mais fundo neste poço, como tal mais distantes da saída.

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