domingo, 31 de maio de 2015

Economia de favor



Favor, também conhecido entre nós por «jeito(inho)», «atenção(zinha)», «toque», «empurrão»… alguns destes gestos acabam por se enquadrar por dealbar para a cunha, para subversão do sistema e a passagem para a informalidade.

Como em tudo na vida não há, em regra, almoços grátis, logo quem presta um favor espera ou simplesmente receberá outro em troca.

E os favores vão das coisas mais simples da vida às mais complexas, dos mais insignificantes aos mais significantes, nalguns casos poderemos até estar a falar de ilícitos.

Em Portugal regista-se uma gigante economia (de troca) de favores, ou seja, um conjunto de transações informais que de forma doce, no conforto do lar, do trabalho, da amizade e do conhecimento escapam às normais regras de mercado e dão corpo à economia paralela.

Quem recebe e/ou troca favores acha que fica a ganhar, que alcança uma vantagem em relação aos demais, que acrescenta valor para si próprio e que se destaca.

Em termos mundanos, incomodam-me, chocam-me por vezes, que determinados indivíduos terem sempre alguém conhecido que faz aquilo que precisamos em determinado momento… nem por acaso… coincidência das coincidências… alguém que certamente o fará bem, prontamente, com confiança, garantia e por um valor imbatível.

E porquê? Porque somos nós, porque aquilo que nos une merece que se faça esta ponte! O problema é que isto multiplica-se por dezenas, centenas e milhares de indivíduos, de situações e de favores a trocar. O problema é que às vezes não queremos e somos levados, imagine-se, a aceitar por uma questão de educação e respeito pelo gesto de alguém que nos quer ajudar.

Claro que não estamos a pensar numa ajuda a alguém com dificuldade em aceder a determinado bem ou serviço por incapacidade ou em caso de necessidade, agora em mercados onde há/deve haver rivalidade no consumo já faz mais confusão.

Tinha a sua piada lançar sobre a economia de favor um imposto… talvez nos surpreendêssemos com o valor expressivo desta economia no total das trocas.

Temos de dar uma volta a essa nossa cultura, quiçá voltar a praticá-la apenas ao nível da troca de salsa por ramos de coentros com vizinho da frente!

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