quarta-feira, 30 de abril de 2014

Um retrato do Portugal comtemporâneo: reportagem da Visão «Este país não é para Raquel?»

O caso que a aqui trazemos, mais do que um infeliz e caricato retrato de um país afogado em contradições, dívidas, à deriva, capturado pela baixa política e pela corrupção, é um exemplo acabado da realidade de muitos portugueses (em especial das gerações mais jovens e em idade ativa).

Retrata a realidade de muitos que se empenha, se esforçam trabalhando ou empreendendo, que transformam as ameaças que se lhe deparam em verdadeiras oportunidades, mas que apesar disso acabam por ser vencidos por um sistema que tortura, que castra a esperança e que, na maioria dos casos, não conta com quem quer pular e avançar e pode fazer o país também progedir.

A política, tal como as guerras semânticas que gravitam à sua volta, são meios fundamentais, mas são apenas isso. Não podem ser um fim em si mesmo, servindo-se a si mesmo ao invés de estarem ao serviço do bem-estar, da segurança, da justiça e do progresso do país.

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«Raquel, 37 anos, fez tudo como os governos gostam: licenciou-se, investiu na sua educação, cultura e formação, trabalhou com dedicação. Criou o seu negócio, foi empreendedora, teve filhos, pagou os impostos e as dívidas. Não viveu acima das suas possibilidades. A empresa onde trabalha quis integrá-la num despedimento coletivo enquanto ela estava a amamentar, mas recuou por causa de dois pareceres da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE), que dizem haver indícios de que ela está a ser discriminada em função da maternidade.

Resultado: Raquel está empregada, mas foi mandada para casa sem receber salário.
Em consequência, o marido foi forçado a emigrar. Os dois filhos  - entre os quais uma bebé de 14 meses - ficaram com ela.
O dinheiro já não chega, o amanhã parece longe demais e ela diz-se vítima de "assédio moral".

Mas em que é que a história desta mãe se relaciona com a de uma família poderosa de província, que fez fortuna a negociar automóveis? Além de terem sentido os efeitos da crise e da má gestão, os administradores terão usado a empresa de construção civil onde Raquel trabalha para obras nas suas casas particulares e para financiar campanhas do PSD.

 Hoje, a empresa está em coma: deve mais de 20 milhões de euros, tem mais de 600 credores à perna - com os bancos à cabeça - e requereu a aprovação de um Processo Especial de Reabilitação (PER). Um empreiteiro que fazia obras para a empresa e prestava serviços ao PSD foi apanhado no meio e ia penhorando a sede nacional do partido, em março, se o cheque com o valor que lhe devem não tivesse aparecido à última hora.

 Também credor da empresa de Raquel, o empreiteiro denunciou várias situações à PJ e ao fisco envolvendo promiscuidades entre a política e as empresas.
Raquel, essa, ainda luta, mas pensa emigrar. "Vale a pena?", pergunta».

Fonte: Revista Visão online, dia 30/04/2014 (http://visao.sapo.pt/este-pais-nao-e-para-raquel=f778686#ixzz30NIOY0Tg) 

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