Durante anos em Portugal vivemos alegremente sobre um enorme cadafalso que cobria o abismo económico e financeiro. Desorçamentamos, fomentamos PPP's, investimos e financiamos consumo públicos com dívida estrangeira, empurramos com a barriga tudo aquilo que conseguimos para vivermos bem o presente.
Embora se tenham estancado as desorçamentações, as PPP, o problema da dívida (o mais grave) permanece atual. A dívida adicional agora necessária já não se destina a investimento ou a consumo próprio, pois para além dessa dívida já contraida, temos de suportar outra: a dívida gerada pela própria dívida, ou seja, a dívida inerente aos juros.
Continuamos a empurrar com a barriga aquilo que não pudemos suportar. Esta nova dívida, emerge também das operações de troca de dívida que realizamos recentemente, que se suportam na máxima "pobres mas honrados", bem como as idas a mercado sem rede.
Ken Rogoff e Carmen Reinhart, num artigo publicado esta semana pelo FMI, defendem que "dada a magnitude da dívida atual e da probabilidade de um período sustentável de crescimento económico médio abaixo do par, é duvidoso que a austeridade orçamental seja suficiente, mesmo que combinada com repressão financeira. Pelo contrário, a dimensão dos problemas sugere que reestruturações [de dívida] serão necessárias, em particular para a periferia da Europa, muito para além do que tem sido discutido em público, até ao momento".
Os autores, a este novo empurrar com a barriga, chamam estado de negação. Este marca a abordagem oficial baseada na suposição de que o crescimento normal pode ser restaurado na base de uma mistura de austeridade, resignação e crescimento.
Os dados económicos (objetivos, racionais, verificáveis comparativamente ao longo da história das crises desta natureza) apontam para esta realidade mas os decisores europeus e alguns governos persistem, por teimosia ou por deriva ideológica, em não querer ver.
Baseados na história das crises desde 1900, os dois autores apontam para cinco elementos de gestão das crises de sobre-endividamento que foram usados em separado ou em alguma combinação: crescimento económico; austeridade; reestruturação de dívida ou bancarrota; inflação inesperada; e repressão financeira com alguma dose constante de inflação. O crescimento económico como cura para o endividamento foi "relativamente raro". As restantes ferramentas implicam, sem dúvida, "uma dose de impopularidade ou de dificuldade prática", referem os autores.
Os atuais governantes nos países desenvolvidos tendem a "esquecer" as reestruturações de dívida e a repressão financeira conjugada com alguma dose de inflação, argumentando que isso são "coisas" para as economias emergentes. Na verdade, as reestruturações de dívida foram frequentes nas economias desenvolvidas no período entre as duas Guerras Mundiais e a repressão financeira com inflação foi usada extensivamente após a 2ª Guerra Mundial.
Os atuais governantes nos países desenvolvidos tendem a "esquecer" as reestruturações de dívida e a repressão financeira conjugada com alguma dose de inflação, argumentando que isso são "coisas" para as economias emergentes. Na verdade, as reestruturações de dívida foram frequentes nas economias desenvolvidas no período entre as duas Guerras Mundiais e a repressão financeira com inflação foi usada extensivamente após a 2ª Guerra Mundial.
Ler aqui o artigo visado:
Financial and Sovereign Debt Crises: Some Lessons Learned and Those Forgotten. FMI. Dezembro de 2013.
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